O exercício da escrita…

será que quando escrevo, sou eu mesmo aquele que escreve ou serei antes alguém que eu invento, para não escrever integralmente aquilo que eu penso, mas que gostaria de pensar, para dizer coisas diferentes daquilo que verdadeiramente sou?

o exercício da escrita é algo que não está completamente ao alcance do nosso inteiro domínio. escrevemos porque sentimos necessidade de escrever, mas muitas vezes ocultamo-nos nesse disfarce de nós próprios para podermos dizer as coisas que julgamos não poderem ser ditas por nós. é um refúgio. um mundo paralelo que criamos. uma artifício de que nos socorremos para não nos expormos.

escrever, é no entanto, um gesto libertador e ao mesmo tempo controlador, porque nasce quase sempre da litigância entre a nossa sede de tudo dizer e ao mesmo tempo nos protegermos de revelar as zonas esconsas e cinzentas da nossa alma. e quando nada mais nos consegue defender desses riscos, é nas palavras que nos refugiamos. a palavra é a argamassa da escrita. e ao mesmo tempo o isolante e o revestimento com que disfarçamos coisas que não queremos dizer, mas que acabamos por sugerir, deixando-as suspensas na narrativa, como se fossem silêncios intercalados, na tentativa de dissimular o sentido geral das frases. das insinuações. das suspeições veladas e difusas. as palavras sozinhas são quase inócuas, ganhando apenas vida e significado quando se entrelaçam umas nas outras e se revelam em pensamentos, em ideias ou em discursos. articulam-se muito mais eficazmente em grupo e é isso que faz da escrita um código mágico de transmitirmos a nossa interpretação da vida. da nossa vida. da vida dos outros. e de todas as vidas, mesmo aquelas que nunca vivemos nem conhecemos. inventamos e imaginamos. criamos, nós próprios, até a vida que nunca existiu nem saberemos se virá a existir. quem escreve é um alquimista das palavras e das ideias. um feiticeiro do faz de conta. escrever é criar o tudo e o nada. ter a ousadia de sonhar com letras e palavras e frases e daí construir algo que possa ser transmitido ao longo dos tempos.

nunca se sabe para quem se escreve, como também nunca se sabe se somos nós ou outra qualquer energia do universo que nos usa para fazermos esta magia. escrever… um exercício obsessivo de não podermos ficar calados e incomunicáveis.. mas não liguem demasiada importância ao que escrevo, pois posso não ser eu, verdadeiramente, o autor da minha escrita… assim como podem não ser vocês o alvo destas palavras… tudo é relativo, chega mesmo a ser opaco,  neste exercício da escrita…

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Amor… afectos e outras dúvidas…

poderia dizer que te amo. poderia, sim, dizê-lo, mas duma forma apenas metafórica, com sujeito indeterminado e apenas com predicado vacilante e assumidamente genérico. poderia dizer que te amo, mas afinal, o que significaria isso se nem sequer sei quem és. nomear-te e não te conhecer, faz da afirmação um logro tremendo. uma falsidade sem objecto e sem sentido.

dizer simplesmente que se ama, é talvez uma forma mais segura, se bem que igualmente inconsequente, principalmente quando não se conhecem bem os sintomas desse estado e desse sentimento que está na base desse desconhecimento que é o amor.

conheço o estado de paixão, de amizade e de afecto, mas não posso dizer da mesma maneira, nada parecido com dizer que te amo, quando  não te conheço. posso, quem sabe ter acreditado, em algum momento, que alguém poderia receber esta declaração, mas sinceramente não acredito que isso possa ter tido algum significado quando nunca descobri explicação para aquilo que genericamente se designa por amor.

então, afinal, será que não gosto de nada? sou insensível e vazio de emoções? não consigo elevar-me ao estado de amante de alguém?… julgo que não é assim tão fácil e definitiva essa suspeição. esse derrubar da magia de se gostar muito de uma ou mais pessoas, sendo que a dificuldade é gostar de uma única e assumir que isso é amor. para mim, é mais afecto ou então paixão, que se pode caracterizar por um afecto exacerbado e enfeitiçador que nos tolhe qualquer tipo de discernimento de uma realidade, para além daquela que nessas condições nos assalta e domina, com prazer sem fim e um temor imenso de que haja um prazo de validade para tal enlevo.

as coisas com que ocupo o meu pensamento levam-me, por vezes, a interrogações sem resultado final. a encruzilhadas que não consigo resolver. porque razão havia eu de procurar agora resposta para esta dúvida. a quem dirigir uma declaração que não tem endereço ou mesmo rosto?…

poderia, é verdade, dizer tanta coisa sem sentido, declarar tanta dúvida sem solução, tanto grito sem tremor, tanta loucura sem demência… e logo fui escolher algo que, sem me amedrontar… me faz sentir impotente de pensar com clareza e equilíbrio…

poderia dizer que te amo, pois podia… se alguma te tivesse encontrado. mas como nunca te alcancei, sinto-me bem assim, gostando das pessoas em geral, respeitando-as e tentando compreendê-las, aceitando as suas diferenças e esperando que elas me aceitem a mim… poderei então dizer que amo qualquer coisa, a vida tal como ela é, e ambos nos vamos moldando ao sabor dos tempos, como as nuvens se moldam no céu ao sabor dos ventos…

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sentado frente ao rio…

quando chega o verão ou uma nesga de sol rompe qualquer dia de inverno ou outono, gosto de me abandonar no jardim das oliveiras, aqui em belém, no ccb. aquela contínua linha de água, que é o tejo, com as colinas da margem sul, o trânsito inusitado no rio, ora cargueiros, ora paquetes de cruzeiro ou simples embarcações de menor porte, transmitem-me uma sensação de calma e serenidade de que me sinto eternamente dependente.”

aqui, posso ser apenas eu, sem constrangimentos de qualquer espécie e assumir todas as minhas qualidades e defeitos. todos os fantasmas da minha aura, todas as insuficiências de mim mesmo. posso até escrever as coisas mais íntimas porque entre elas e o leitor existirá sempre um escudo de olhares ocultos, que nada perscutam, apenas registam e deixam uma ténue imagem do que me atormenta ou encanta. é um refúgio de mim mesmo, com vista para o azul do céu e as tonalidades difusas do rio que me persegue, na minha condição de lisboeta.”

julgo que quem escreve tenta dizer aquilo que não fala, muitas vezes, nem com os amigos mais íntimos, porque nos é difícil confrontar aquilo que somos com aquilo que os outros julgam sermos, embora sempre preocupados em não enganarmos as nossas amizades. são coisas demasiado complexas que julgamos não estarem ao alcance dos amigos que nos amam e constantemente nos observam. coisas que julgamos estarem aquém da nossa identidade social e afectiva. e no entanto, eu sinto que tenho amizades que conseguem descodificar algo da minha tristeza, da minha angústia e da minha solidão inegável. solidão que tento sempre dissimular e reconstruir numa outra dimensão de vital necessidade de estar só, apenas…”

mas sei que há quem consiga ler-me e sentir o labirinto dos meus sentimentos. os meus afectos são partilhados mas eu não partilho deles na mesma espiral de sentimentos que fluem dentro de mim, como se tudo estivesse trocado e em linhas concêntricas que só muito ténuemente se tocam. apenas existem no mesmo espaço, mas em planos diferentes das relações afectivas que identifico e respeito. eu dentro de mim não coincido com aquilo que sou para fora e fora de mim fica quase tudo. os afectos vivenciados, os afectos físicos e mentais, os afectos duma mão que se toca ou dum olhar infinito que se troca com alguém…”

aqui, sentado frente ao rio, tudo se torna mais fácil e a segurança que sinto pelo facto das pessoas que se cruzam no meu olhar não poderem adivinhar estas minhas insuficiências, permite-me reflectir e assimilar o mal que tudo isto me traz… sei que esta derradeira falta de afectos trocados, existe, mas que, possivelmente, nada disto aconteceria porque me falta a coragem de os inventar… mas aqui posso dizer tudo e nada me impede de sentir realmente falta de qualquer coisa.”

sinto o tempo a passar e cada dia que passa é um passo atrás na minha caminhada para conseguir algo que me traga o prazer de sentir que não estou só. e no entanto, caminho e insisto, mas de cada vez sinto que não consigo acompanhar o ritmo daqueles ou daquilo que mais desejaria que fizessem parte da minha alegria de viver. mas não desisto. continuo ainda a acreditar que tudo é uma questão de sincronismo e cumplicidade. resta-me conseguir encontrar estes elementos dentro de mim.”

aqui, sentado frente ao rio, estou só, mas não me sinto só. poderei sentir-me triste, mas sei que o azul deste céu, o fluir deste rio, a brisa que corre e me fustiga os cabelos grisalhos da minha condição de homem a caminhar para o crepúsculo da vida e os afectos possíveis que ainda vou mantendo, são uma certeza de que nada ainda terminou e os ciclos das estações me hão-de trazer novos verões e primaveras, mesmo que não os afagos dum olhar e duma mão sobre a minha mão…”

como soe dizer-se, é a vida, ainda!…”

(ernani)”
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pensar (tristeza) até à exaustão do possível…

quando me sinto triste, parece que em cada momento que passa, quero ficar ainda mais triste, como que exercitando uma catarse de tristeza que se confunde e desagua numa derradeira melancolia.”

um refúgio e ao mesmo tempo um nutriente para estes momentos, acontece com a música e escolho então aquela que mais memórias me traz e a que mais me faz mergulhar em estados de espírito nostálgicos ou mesmo punitivos da minha falta de alegria, aquilo que normalmente se considera um contraponto da tristeza, vá-se lá saber se uma e outra são antagónicas ou o contrário de si mesmas. poder-se-à, ao mesmo tempo, estar triste e alegre ou uma pode conviver e alimentar a outra?… é o estigma das saudades de mim mesmo, daquilo que fui e já não sou, do que nunca fui e dificilmente poderei ainda vir a ser, com tudo o que isso implica de sentimentos e emoções, afectos e desaires, certezas ou incertezas, esperanças ou desilusões.”

sinto-me triste e pronto. valerá a pena questionar-me sobre a razão, ou tristeza será apenas a reação natural à nossa inacapacidade de nos relacionarmos com ou outros ou mesmo com a realidade?”

os nossos sentimentos são uma teia de angústia e exaltação que nos impulsiona ou condiciona, de acordo com o estado emotivo que nos atravessa e quantas vezes nos sentimos perdidos entre afectos que nos confundem, pela dificuldade em os classificar ou mesmo atribuir-lhes graus de valoração, ou porque realmente não sabemos ou porque receamos dissecá-los e enfrentá-los!?… a banalização do conceito do amor faz-me sempre recuar quando tento compreender o que me assola a alma… fico engasgado na minha capacidade de entender o que se passa no mais profundo do meu espírito. e fico triste.”

e quando fico triste, ouço música, abraço o silêncio e penso… penso muito, às vezes até à exaustão do possível e quando sinto os olhos húmidos, sei que a tristeza tomou conta de mim… e abandono-me… às vezes, escrevo…”

estar triste, não é grave, é apenas saber que estamos vivos e queremos ser felizes depois da tristeza passar.”

(ernani)”

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lágrimas… gotas de sentimentos

não sei porque verto lágrimas

são tristezas e alegrias que me transbordam

e que eu não sei esconder

são gotas de sentimentos confusos e incontroláveis

que eu liberto porque me quero sentir feliz

mesmo apesar da tristeza que muitos deles

comportam…

(ernani)

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no leito da tristeza…


a tristeza será um refúgio

não sei

uma fuga interior de mim para mim

que pode envolver alguém

mas não obrigatoriamente torná-la responsável

é um estado de pausa e melancolia

por aquilo que podia ser e não é

está-se triste

porque não se sente a vida como devia ser

a vida como imaginamos que podia acontecer

porque nos falta o brilho da esperança

e não antevemos o amanhã

embora saibamos que vamos ter que suportá-lo

com a mesma perseverança

de não querermos ficar aqui

no leito morno desta tristeza latente…

(ernani)

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a derradeira insustentabilidade do desejo… ou as saudades de si…

já uma vez escrevera: “convencera-se que se conseguisse captar um sorriso, que fosse, um olhar de afecto ou mesmo de paixão, isso talvez o inspirasse na ficção que desesperadamente procurava. uma ficção de si próprio. uma ficção de gente apaixonada e feliz, misturada com sonhos e afectos de que tanta falta sentia. o desespero apossara-se dele, sem lhe deixar já grande margem para uma auto-estima que se ia desgastando e transformando em momentos cada vez mais penosos e incapazes de serem ultrapassados.

mas isso era num daqueles textos curtos, que insistentemente procurava assinar, para ninguem mais ler… uma inglória busca do leitor perdido, que obviamente nunca iria encontrar, porque ambos se cruzavam em espaços e tempos diferentes… agora, não!… este poderia ser o início de qualquer coisa em grande, de qualquer coisa consistente e acabada, que não se ficasse apenas por ideias e se pudesse alargar por uma trama com história, com romance… com enredo!… mas lá no fundo, ele sabia que o texto que ora se construía, iria terminar daqui a pouco, num ponto final ou em reticências, que tão bem demonstravam a insustentabilidade da ideia…

a sua escrita, tinha obviamente a ver consigo próprio, com o seu percurso e a sua vaga objectividade sobre um rumo de vida, mais essencialmente sobre um projecto de afectos que nunca conseguia concretizar, apesar dos inúmeros apelos e aparentes oportunidades…

agora era o tempo de esperar, de conter em si todos os sentimentos e libertar apenas aqueles que eventualmente lhe dessem confiança para conviver com as amizades que tinha vindo a colecionar. reconhecia em si uma rara capacidade para seduzir as pessoas de quem gostava, mas essa sedução era sempre receosa e titubeante, apenas o suficiente para que os outros vissem em si uma pessoa agradável, de bom trato, bom coração e muita emotividade. e quando alguém lhe enchia a alma de paixão e desejo, logo se retraía, num silencioso registo de contração e num defensivo sombreado de emoções subconscientemente calculadas, debruçadas sobre um abismo de dúvidas e incertezas, fragilidades e insegurança, apavorado na perspectiva de que a sua frontalidade na revelação dos seus mais profundos sentimentos afectivos, destruissem a amizade que receava ferir ou mesmo destroçar.

havia dias em que se retirava, às vezes até de si próprio, isolava-se num casulo de espaços e pessoas, que circulavam à sua volta, mas ele permanecia protegido pelo silêncio, o seu silêncio interior, apenas entrecortado por pensamentos dispersos e recalcantes, onde tentava encontrar um caminho para chegar a qualquer lado mais reconfortante e onde existissem carícias, olhos brilhantes, sorrisos e beijos, ou apenas um leve relampejar de êxtase e prazer explícito. há tanto  tempo que não trocava um afecto físico com ninguém, um afago, um explorar a face e o corpo duma mulher, apenas porque seria isso a vontade de ambos, sem projectos ou perguntas, dúvidas ou certezas, apenas porque isso fosse como que um ímpeto incontido e incontível, que tivesse dentro de si a naturalidade da vida como ela deveria ser…

era então que pensava e ensaiava a certeza de que nenhuma história de amor o incluiria, nem nas linhas nem nas entrelinhas de qualquer enredo dum romance. o romance que lhe parecia destinado, era um romance incompleto, sempre solitário e triste, do qual ele acabava sempre por sair antes do capítulo final e tudo terminava nas eternas reticências da sua condição…

era por isso, na derradeira ficção de si próprio, que se quedava, cada vez mais seguro de que o sorriso da vida que procurava, não lhe ia surgir, nem mesmo das suas amizades mais resguardadas e sentidas, mais apaixonadas ou desejadas… no fundo, a sua paixão esgotava-se num desejo silencioso que nunca ganhava voz ou gesto, atitude ou risco. não arriscava porque temia. não libertava a voz porque se sufocava num silêncio cauteloso. não agia porque temia que um gesto, apenas, de maior afectividade, fosse mal interpretado e selasse o fim duma amizade tão bela… e retraía-se cada vez mais. eliminava-se em cada dia que passava. fazia apenas a gestão dessa afectividade, no pânico constante de não entender se as portas se lhe abriam ou apenas deixavam a nesga suficiente para manter a amizade que construira…

às vezes tinha saudades de si próprio. não saudades temporais, mas antes saudades, tão somente temperamentais. saudades dos tempos que poderia ter vivido e não viveu. saudades de coisas que poderia ter feito e não fez. saudades até daquilo que poderia ainda viver e jamais viveria. saudades de afectos, emoções e paixões que nunca experimentara e poderia nunca vir a vivenciar. saudades de amizades que poderiam ter migrado para paixões ou que simplesmente se ficaram por ali, porque não tivera a coragem de se abrir e proclamar o que sentia. saudades de nunca ganhar a força bastante para dali arrancar para outra coisa que lhe poderia trazer mais felicidade… às vezes sentia saudades dos outros, dos amigos, dos mesmo muito amigos, não porque eles não estivessem sempre presentes, mas porque tinha medo que se esfumassem no mundo intrincado dos afectos que nunca tivera a coragem de explorar…

entre aquilo que tinha sido e aquilo que agora era, sobrava-lhe aquilo que poderia ter sido e nunca fora, mas também a angústia de nunca vir a ser o que não era. às vezes olhava para dentro de si e via um enorme buraco negro de sentimentos e afectos que poderiam ter sido e dificilmente viriam alguma vez a ser. um arco-íris a preto e branco que o impedia de almejar ser mais de si mesmo e menos do outro retraído que sempre fora.

sentia saudades de si mesmo… saudades dos afectos que nunca conseguira transformar numa magia de sentimentos partilhados… num gesto, num afago, num abraço, que mesmo assim já lhe chegariam para matar as saudades incontornáveis de alguém que fosse… sentia muitas saudades da vida… sentia enormes saudades de alguns amigos… sentia, por exemplo saudades inexplicáveis duma amiga que partira a meio da sua vida, porque já não aguentava a dor… mas, sentir saudades daquilo que nunca se tivera, era ainda mais doloroso porque em vez da morte, era a vida que lhe provocava tamanha nostalgia…

(ernani)

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